Samuel Bozio

Poemas, ensaios e vídeos.

REME — Verso Livre

CANTO I.

Um homem atravessa uma cidade tombada. Todos os corpos ali deixados agora seguem o deus do elmo de penas. Ainda há fumaça que serpenteia os casebres incendiados. A madeira do cavalo está intacta e sua portinhola aberta. Aquele que, construído sob as ordens de Atena, fora abandonado frente ao mar. Deu à luz a chacina do povo teucro pela beleza incomparável da amante de Páris. O filho da deusa do amor atravessa a cidade tombada. Seu rosto sujo de poeira e sangue paira diante das ruínas de seu antigo berço. Seus lábios trêmulos e seus olhos que tremeluziam vertem lágrimas perante o espectro de sua falecida esposa. O herói atravessa sua cidade tombada, envolto em seu lamento. O fruto deste amor aguarda do outro lado das muralhas junto de seu avô, já convencido pelo sinal oracular. Eneias atravessa os portões para nunca mais retornar a Troia. O que sobra atrás de si, em devir, tornar-se-á passado. Em suas costas, o velho enfermo, seu pai. Adiante, o porvir rei de Alba Longa, que caminha confuso. Rumo a Trácia.

CANTO II.

O sucessor de Lavínio, fundou a cidade Mãe e uma dúzia de reis reinaram entre o primeiro e o último. No reinado dos filhos de Procas, o rei velho avista seu irmão trazendo aos ombros, um saco pesado e cambaleante. Ao desatar a amarra, as cabeças dos herdeiros do rei rolam diante de seus pés. Incrédulo, o rei brande sua lança mas é traído e retido por seus próprios servos. Em meio aos semblantes sem vida de seus irmãos, a virgem jura servidão à deusa do fogo sagrado e encerra o expurgo. E seu pai, destronado pelo tio, exila-se em suas terras imerso em seu luto. Na noite após o golpe, Amúlio disfarça-se de Marte e fecunda a vestal. Réia, manchada de sangue, dá à luz aos netos de Numitor. A mãe, cultiva um amor terno e cruel enquanto acaricia seu ventre. O rei enraivecido, ordena que os gêmeos sejam afogados no Tibre. Mas seu servo piedoso, deixa-os em segurança, em segredo. A mulher de todos os homens os encontra e os amamenta. E de Remo e Rômulo os chama.

CANTO III.

No quadrante oracular traçado no céu, As aves do pai dos deuses leram o pedido e apontaram para as terras do rei exilado. E dela os irmãos furtaram um pequeno rebanho. Ainda, outro bando de ladrões frustrados pelo próprio atraso Já sabidos das empreitadas dos dois meninos criados pastores À força, levaram-nos cara a cara com o dono dos gados. Que ao ver os castanhos ébrios da mocidade, fora como olhar através de um espelho. Numitor, reconheceu seus netos e lhes contou seu fardo. Os gêmeos, atraídos por suas origens prometem aos ladrões riqueza para que os ajudem invadir sua cidade natal. Forjaram a entrega de uma espada feita pelo deus do elmo com crista e os servos de Amúlio, admitiram a oferenda. Ao abrir o caixote, o rei se depara com um rim animal. Enojado, ordena para que seus soldados retirem os dois do local. Mas a ação subsequente é a investida dos bandidos contra os aliados do monarca. Ao redor dos degolados, os irmãos aruspiciam o órgão do animal e mostram ao rei seu derradeiro. “Ó, Amúlio. Teu reinado indevido chega ao fim. Assim dizem as entranhas.” Grita, do fundo dos aposentos em cárcere, a vestal. “Antes que defiram o golpe fatal, saibam que este quem prostra diante de vós é o mesmo que vos concebeu em meu ventre.” Era o sulco rajado mais fundo e vermelho, do orgão do animal. Remo então desfere o golpe parricida.

CANTO IV.

O instante em que os irmãos conhecerem seu pai, foi o mesmo que o viram cair e morrer. O instante em que um dos irmãos atacou, o outro descobriu que provinha de um estupro. E no instante seguinte, o remorso de Rômulo o ressentiu diante de seu irmão e seu pai caído. Junto ao corpo ensanguentado, escorriam porquês que jamais saberia. E diante de si, a sacerdotisa em prantos confusa se os abraça ou foge daquela cena infernal.

I.

Herdei de meu pai uma degeneração genética da retina. Desde pequeno, desde um ser fofo desalmado e gorducho como se tivesse sido naturalmente implantado o devido valor à imagem. Eu enxergava o mundo do mais belo pássaro morto até o rubro entardecer infernal, e à mim era admirável. Então fui crescendo e sem que me avisasse no fundo eu ainda me entregava ao que via, e bastava-me apenas olhar. A palma erguida de minha mãe num movimento rápido, preciso e triste que meus olhos mal conseguiam acompanhar. Eu admirava. Ao atravessar meu rosto, marcava-o com um vermelho intenso, latejante e quente, que frente ao espelho eu amei pela primeira vez a cor do sangue. Uma paixão terna e sádica. Assim que completei dezesseis anos, foi-me avisado de meu fardo e minha visão turvou-se numa película cristalina de dor. A dor que só os fadados à ausência sentem. Me declarei para minha vizinha e insisti para que entendesse o fruto de minha paixão. Uma semana mais tarde, eu a despi e não cedi um sequer segundo ao breu de entregar-se ao prazer. Fitei cada detalhe: Suas sobrancelhas franzidas, seus cílios, sua boca entreaberta, seus dentes perfeitos; assim fiz, como um maníaco imerso em sua timidez. E ao fim do ato, nos lençóis eu o vi: O rompimento. A luxúria precavida de ingenuidade entre suas perninhas bambas como duas torres que choram sangue. Vermelho pela última vez.

II.

E ante a maré eu velejava em remadas penosas com o sol confuso em qual hemisfério se punharia. Impelido à um repouso aflito encarei a água e pude ver como num espelho do tempo meu rosto livre das marcas e meus olhos brilhosos com o ardor jubiloso da jovialidade. Em meu penteado lustrado que com a mão toquei a atual coroa calva, memorei picos orgulhosos de vaidade zodíaca. Me estirei de sobressalto em apoio contra a madeira de minha canoa visceral, seguro de que de meu peito meu coração não se desprenderia E no ímpeto mordaz, se lançasse para se afogar em minhas cálidas bochechas coradas ante ao toque dos teus dedinhos. Embevecido, atraído pela mesma vontade de me debruçar novamente e umedecer o nariz a fim de que mais próximo eu estivesse destas visões tão vívidas, tão ímpares. Ao mergulhar as narinas e meu par de olhos contíguos ao plano aquoso, comicharem. Lancei ao mundo meu brado bárbaro ao perceber que os olhos que me miravam assíduos não eram o reflexo dos meus próprios. E como se toda saudade entrasse em cárcere, aqueles olhos eram-me íntimos. Os castanhos ébrios de meu progenitor de quem herdei a poesia bestial. Minha canoa num sopro fluvial deslizou à sombra da tormenta celeste em direção aonde o sol do hoje morria. Perante os impactos entre colunas salgadas, meu olhar desvaído à musa que aos poucos se erguia. Trouxe á tona meu Eu genuíno com um rosto inexpressivo em meio aos cambaleios. E levou consigo num calafrio glacial todo demérito adquirido até alí. Apaziguou meu pavor e me envolveu como uma serpente melancólica, de névea hermética. Imerso no abismo indolente até meu coração cessar a pulsão.

III.

No silêncio eu era uma bailarina submersa numa profunda piscina de um ginásio vazio com uma nuvem de medo do abandono de morrer afogado por perder as forças por não resistir a tentação e ninguém me descobrir até o próximo nadador No silêncio eu era um prato do almoço esquecido até a janta. Uma refeição inútil que algum fantasma apenas observou atentamente as moscas pousarem e o macarrão perder sua aparência e sabor. No silêncio eu era a confusão dos ingênuos diante uma piada maldosa em sua própria impotência. Eu era o grito inaudível a súplica enquanto o trem se afasta levando meu único amor que acolheu minha fúria como mágica. O rugido na tentativa de exorcizar o diabo de cada dia que me causa dor no estômago no coração e nos ossos das costelas que congestiona minhas narinas e é o ar que resseca meus lábios e o amarelo do meu sorriso, que consome meu liquor. E uma mosca voa E um vampiro ri e perde o fôlego e eu novamente sou o silêncio pela janela do quarto o temporal e minha Ira se reerguendo em uma trovoada no brado celestial.

IV.

Na ameaça fulgente dos teu olhos perdido no vazio inconstante do infinito na via ébria e asfaltada do mais selvagem subúrbio Eu conheci os anjinhos fofoqueiros cacoetes do cão anjinhos de joelhos ralados anjinhos poetas de asas indomáveis perdidos no masoquismo lírico onde vertiam delírios Gargalhantes delírios ao lado do poste à sombra do paraíso escondido Cessou-se a folia minha e dos meus amiguinhos envergonharam-se ao ver subindo Lucifer, sorrindo. O fim do carnaval e a mera prosa em ruína.

V.

tu surge à mim como um raio à mim, ignóbil chão que acolhe teu clarão que devasta toda poeira dos olhos e os automóveis da racionalidade como um raio o jeito que deus encontrou de dizer acordem a logística da mensagem divina um raio perante a indiferença com o caos

Da Intenção à Forma: O Peso do Minimalismo

O minimalismo contemporâneo muitas vezes é confundido com a simples ausência de elementos. No entanto, sua verdadeira potência reside na precisão: retirar o excesso para que o essencial finalmente ocupe o espaço que lhe é devido.

Ao escrever ou compor uma cena, cada linha desnecessária funciona como ruído que dispersa o leitor. Escolher o vazio deliberado é um ato de confiança naquilo que permanece.

trilha malakoff entre amigos